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Justiça é o que  quero!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Mortes na região amazônica: vidas ceifadas pela expansão do capital e a omissão do Estado




Em questão de duas semanas, cinco pessoas foram assassinadas em áreas de conflitos de terra no Pará e Rondônia. Três vítimas – o casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo e o agricultor Erenilton Pereira dos Santos – moravam no assentamento Praialta-Piranheira, em Nova Ipixuna (PA). A quarta vítima, o líder do Movimento Camponês Corumbiara, Adelino Ramos, foi morta em Rondônia. No começo de junho, foi assassinado a tiros o agricultor Marcos Gomes da Silva, 33 anos, residente em Eldorado dos Carajás (PA). A execução se deu na presença da mulher e de outras três testemunhas, e os seis disparos foram feitos por dois homens encapuzados. As quatro primeiras vítimas foram mortas entre os dias 24 e 28 de maio.
O casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, era o mais conhecido de todos. Eles lutavam desde 2008 contra a devastação florestal e a exploração ilegal de madeira no entorno da comunidade de Maçaranduba, sudeste do Pará. A propriedade do casal tinha 80% da mata preservada. Eles viviam há 24 anos na região e faziam parte da Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), uma organização não governamental criada por Chico Mendes, assassinado no Acre na década de 80 por também defender a floresta amazônica.
Em palestra em novembro, no evento TEDx Amazônia, Zé Cláudio, também conhecido como Zé Castanha, denunciava o desmate. “É um desastre para quem vive do extrativismo como eu, que sou castanheiro desde os 7 anos da idade, vivo da floresta e protejo ela de todo jeito. Por isso, vivo com a bala na cabeça, a qualquer hora”. “Eu posso estar aqui conversando com vocês e daqui a um mês vocês podem saber a notícia de que desapareci”, disse ele também naquela ocasião.
Em outro momento, também em novembro do ano passado, o extrativista e líder ambiental contou como era conviver dia após dia com as ameaças de morte. Segundo Zé Cláudio, sua mulher sofria muito com a situação, mas era uma defensora da natureza ainda mais ferrenha que ele. “Quando eu paro um madeireiro, é ela quem fotografa com a máquina digital. Por isso que eles (quem os ameaçava) dizem: ‘Não pode matar ele e deixar ela. Não pode matar ela e deixar ele. Tem que matar os dois’”, justificando a razão pela qual matariam os dois.
Por conta das ameaças que recebia e das dificuldades de continuar o trabalho extrativista no assentamento, Zé Cláudio falava inclusive em deixar o local.
Longa lista de assassinados e ameaçados
As cinco últimas vítimas deste ano aumentam o já longo rosário de assassinatos, de lideranças mais ou menos conhecidas, passando por Chico Mendes (1988) e Ir. Dorothy Stang (2005), para citar apenas os dois casos de maior repercussão. O fato de terem sido mortos em épocas diferentes indica também a permanência histórica dos conflitos de terra em nosso país.
A CPT desde 1985 divulga, anualmente, o relatório sobre os conflitos no campo. Segundo a entidade, de 2000 a 2010, 1.855 pessoas foram ameaçadas pelo menos uma vez. Desse total, 207 pessoas foram ameaçadas mais de uma vez, sendo que 42 acabaram sendo assassinadas e 30 chegaram a sofrer tentativa de assassinato. De 2000 a 2010, foram assassinadas 401 pessoas em todo o país.
Na lista de marcados para morrer estão, entre outros, um sindicalista, um agricultor e dois vereadores de Nova Ipixuna, no sudeste do Pará, e dez líderes comunitários da região amazonense de Lábrea.
Já em março passado, um grupo de 13 ativistas, entre as quais freira Henriqueta Cavalcante, da Comissão de Justiça e Paz, da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) estavam juradas de morte no Pará.
Os assassinatos ocorridos no Pará, fazem da região Norte a mais violenta do Brasil.
Governo dá sinais de reação
Diante das mortes, o governo federal começou a se mover, até porque os assassinatos, além do impacto interno, têm repercussões em nível internacional, chamuscando ainda mais a imagem do Brasil, especialmente em relação ao tratamento dado à Amazônia, com consequências econômicas.
Entre as iniciativas, estão as seguintes: a) Imediatamente, o governo começou a convocar diversos setores do governo, da sociedade civil (Comissão Pastoral da Terra – CPT) e os governadores, para discutir ações que devem ser tomadas com vistas a enfrentar a situação. Ao nível do governo, foram ou estão sendo mobilizados vários ministérios, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), a Força Nacional de Segurança Pública, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.
No final de maio, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) foi convidada a participar de audiência com a ministra da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, para discutir as ameaças de morte contra lutadores e lutadoras da terra e sobre a violência no campo e os assassinatos da última semana. A CPT vem há anos denunciando ações desse tipo em todo o país. Seu relatório anual, Conflitos no Campo Brasil, publicado anualmente há 26 anos, traz denúncias tanto de pessoas assassinadas e áreas em conflito, quanto de pessoas que são ameaçadas em todo o país.
b) Além disso, a presidenta entrou pessoalmente na questão, criando um grupo de trabalho interministerial, a ser coordenado pelo secretário geral da Presidência, Gilberto Carvalho, para acompanhar a investigação dos assassinatos e acelerar ações de regularização fundiária e desenvolvimento sustentável nas áreas de conflito. A Operação Arco de Fogo, criada em 2008. Em reunião com vários ministros, convocada pela presidenta Dilma, o governo anunciou o envio de tropas à área do conflito.
c) Em outra ponta, o governo decidiu anunciar algumas medidas pontuas e burocráticas para deter a escalada de violência no campo. Retomou a Operação Arco de Fogo, criada em 2008 para coibir ações de extração ilegal de madeira na região da Amazônia e outros delitos ambientais. Está cogitando a criação de uma Área sob Limitação Administrativa Provisória (Alap), via decreto, que funcionaria como uma espécie de intervenção federal em áreas do Acre, Amazonas e Rondônia. O governo decidiu também dar prioridade à segurança de 30 agricultores e ambientalistas, que integram a lista de 1.813 pessoas ameaçadas por madeireiros entregue ao governo pela CPT. Esta lista poderá ser ampliada para 165 nomes.
Medidas tímidas e insuficientes
O sentimento generalizado é de que as medidas até agora anunciadas são tímidas e insuficientes, paliativas e até mesmo momentâneas, na medida em que não apontam para a implementação de políticas estruturais. No dizer do padre Ricardo Rezende, que trabalhou durante décadas na região e que também foi ameaçado de morte, o que o governo anunciou até agora são “medidas curativas”, mas, segundo ele, faltam “medidas preventivas” que ataquem “as raízes dos problemas: reforma agrária, sonegação de imposto, derrubada irregular de mata, grilagem de terra”.
Outro que cobra agilidade em políticas que ajam sobre as causas da violência na região é José Batista Afonso. “É preciso mais agilidade na demarcação de terras indígenas, regularização das terras de remanescentes de quilombos, das comunidades ribeirinhas, das áreas de proteção ambiental, além da fiscalização daquelas já existentes. Essa demarcação de territórios das comunidades da Amazônia é um passo no sentido de impor uma barreira de expansão dessas empresas ligadas ao grande capital, que estão na origem dessa violência. Então, é preciso atacar a questão de fundo, a reforma agrária também precisa ser prioridade”, insiste.
Lideranças sociais alertam também para a falta de impunidade reinante na região e que estaria na raiz de muita da violência. “Nos resta uma sensação de impunidade, de que este é um país sem lei”, afirma Mário Lúcio Reis, superintendente do Ibama do Amazonas. Também para dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, fundador da CPT e do CIMI e que conhece muito bem a região, as mortes “não são fatos isolados”, mas que representam mais “um episódio da guerra no campo. É fruto da impunidade e da corrupção marcantes sobretudo no Pará, campeão em violência no campo, em desmatamento e queimadas”, dom Pedro Casaldáliga.
A lentidão e conivência do governo estariam por trás das mortes das lideranças sociais ocorridas nas últimas semanas, alerta o diretor do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Atanagildo de Deus Matos. Para os bispos do Amapá e Pará, trata-se de mais uma amostra da “deficiência” do Estado brasileiro: “Diante desse triste e lamentável episódio, que escancara a deficiência do Estado Brasileiro em defender os filhos da terra que lutam em favor da vida, só nos resta exigir que esse crime não seja mais um impune”, diz nota da CNBB Regional Norte 2 (Amapá e Pará).
Em Nota Pública, a CPT responsabiliza o Estado pela morte do casal. “A Coordenação Nacional da CPT reafirma a responsabilidade do Estado por este crime. A vida das pessoas e os bens natureza nada valem se estes se interpuserem como obstáculo ao decantado “crescimento econômico”, defendido pelos sucessivos governos federais, pelos legisladores do Congresso Nacional que aprovam leis que promovem maior destruição do meio ambiente, e pelo judiciário sempre muito ágil em atender os reclamos da elite agrária, mas mais que lento para julgar os crimes contra os camponeses e camponesas e seus aliados. A certeza da impunidade alimenta a violência.”
Ampliando o leque, dom Pedro Casaldáliga a “omissão” do Estado em relação a “a três grandes dívidas: a reforma agrária, a política indigenista, a política doméstica e ecológica do consumo interno”.
Ausência ou omissão? No contexto de cobertura dos acontecimentos que envolvem o assassinato das lideranças camponesas e extrativistas, vale trazer a análise feita pelo Afonso Chagas, mestrando do PPG em Direito da Unisinos. Para ele, é incorreto afirmar que o Estado está ausente na região. “Afirmar a ausência do Estado, é uma visão minimalista, pelo fato de que o projeto de expansão agrícola da Amazônia foi muito bem ‘planejado’, tanto é que hoje, se tomarmos os estados da Amazônia legal, nunca o agronegócio encontrou tanto trânsito livre, principalmente o governamental, para se instituir e agir, não só em relação à ‘impunidade consentida’, mas sobretudo em polpudos financiamentos governamentais. A presença de ‘enclaves’ internacionais (Cargill, Monsanto, Bunge, Tractbel) e outros, não ocorreu sem um maciço implemento estatal, via BNDES.”
Mortes podem ter relação com a mudança do Código Florestal
Outra questão é saber se há uma relação direta ou indireta das mortes com a mudança do Código Florestal. Para o secretário Executivo do Ministério da Justiça, Luis Paulo Barreto, “não há nenhum dado, investigação apontando qualquer vinculação destes assassinatos com a tramitação do Código Florestal”, referindo-se à morte do casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo.
Entretanto, de acordo com o advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), José Batista Gonçalves Afonso, que está na região para acompanhar as investigações, há relação, sim. “A questão da regularização fundiária, aprovada em 2009, a questão da concessão de florestal, são leis que vem flexibilizando para que o capital avance sobre a floresta. Então, as leis têm favorecido isso e o Código Florestal vem nesse contexto”, afirma Batista Afonso.
O engenheiro florestal Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), lembra que com o esgotamento das áreas onde era possível retirar madeira e desmatar para fazer ocupações, as reservas, terras indígenas e assentamentos agroflorestais, transformam-se em alvos próximos para novos desmatamentos.
As investidas das madeireiras são sentidas inclusive no assentamento Praialta/Piranheira, onde morava e atuava o casal de extrativistas mortos. Ali, fiscais do Ibama e agentes da Polícia Federal comprovaram um cenário de devastação de espécies nobres de madeira, como angelim, ipê roxo, ipê amarelo e castanheira, árvore cujo corte é proibido por lei em razão de correr risco de extinção. Com o apoio de um helicóptero, eles localizaram extensas áreas de floresta desmatadas para a retirada ilegal de madeira. A derrubada é feita por empresas madeireiras e também por assentados.
Nestes locais, os próprios assentados não conseguem resistir às pressões para produzir carvão e cortar madeiras em áreas de proteção ambiental.
Bispos ameaçados
A violência não mira apenas nas lideranças camponesas e extrativistas. E não se produz exclusivamente pela questão agrária. Na última Assembleia geral da CNBB, três bispos do Pará ameaçados de morte, todos de origem estrangeira, passaram os dez dias sob proteção policial. O austríaco d. Erwin Kräutler, da prelazia do Xingu, o espanhol d. José Luís Azcona Hermoso, da prelazia de Marajó, e o italiano d. Flávio Giovenale, da diocese de Abaetetuba, foram constantemente vigiados por cinco agentes de segurança, que se revezavam dia e noite. As ameaças são decorrentes de denúncias de tráfico de mulheres, violência contra indígenas, tráfico de drogas e armas.
Violência contra indígenas
Na mesma assembleia geral, a Conferência Nacional dos Bispos Brasil (CNBB) afirmou, em nota de sua 49.ª Assembleia Geral, reunida em Aparecida, que 499 índios foram assassinados em conflitos de terra, no País, entre 2003 e 2010, e 748 estão presos atualmente “porque, diante de questões não resolvidas, são levados ao desespero e à agressividade”. Pelo menos 60 lideranças indígenas, segundo os bispos, respondem a processos em consequência de sua atuação em defesa de seus territórios.
“Temos observado que continua bastante recorrente o fato que, nos casos em que o intento de inviabilizar a demarcação de uma terra indígena não é atingido por meio de pressões políticas ou de ações judiciais, alguns segmentos político-econômicos apelam para a violência, promovem invasão das terras indígenas, atacam e assassinam as lideranças destes povos”, denuncia dom Erwin Kräutler, em pronunciamento feito ao episcopado brasileiro, reunido na 49ª assembleia geral. Este pronunciamento motivou e fundamentou a nota dos bispos em que declaram seu compromisso com a causa indígena.

terça-feira, 14 de junho de 2011

OS MÁRTIR DA JUSTIÇA!

Trabalhadores criticam ação do Estado apenas após mortes no campo





Beto OliveiraMinistros da Justiça e dos Direitos Humanos anunciaram ações para combater a violência no campo
Representantes de camponeses e populações extrativistas criticaram nesta terça-feira o governo por tomar providências contra os crimes no campo apenas após a morte de trabalhadores. Na comissão geral para discutir o assunto, realizada no Plenário, ministros anunciaram medidas de combate à violência provocada por conflitos agrários na Região Norte do País.
Segundo o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a Operação em Defesa da Vida, que será iniciada na próxima semana, reúne duas ações básicas: o envio de integrantes da Polícia Federal, da Polícia Rodoviária Federal e da Força Nacional para atuar nos estados do Pará, do Amazonas e de Rondônia; e o suporte ao Judiciário e ao Ministério Público dos três estados.
Os objetivos, segundo destacou o ministro, são evitar novos homicídios nesses estados; auxiliar as polícias locais em investigações em curso; e agilizar o andamento dos processos judiciais.
Cardozo antecipou ainda que está sendo elaborado um plano de redução dos índices de homicídios no País, a ser executado em conjunto com os governos estaduais. Ações posteriores
O presidente do Conselho Nacional de Populações Extrativistas (CNS), Manoel Silva da Cunha, parabenizou o governo pelas medidas anunciadas, mas questionou o fato de as ações serem tomadas apenas depois da morte de trabalhadores. “Foi assim com Chico Mendes, com José Cláudio Ribeiro da Silva (líder defensor da floresta tropical, assassinado no Pará). O governo só aparece quando alguém tomba. Viemos pedir, em nome dos que ainda estão vivos, que isso não aconteça mais”, disse.
Já o advogado da Associação dos Camponeses do Estado do Amazonas, Rafael Oliveira Claros, destacou que órgãos do governo já sabiam da possibilidade de assassinato de trabalhadores do campo no estado, como no caso da morte do líder camponês Adelino Ramos (conhecido como Dinho), mas que não atuaram parar coibir as mortes.
Entre essas instituições, ele citou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Ouvidoria Agrária Nacional.
“A impunidade se dá pela falta da presença do Estado”, afirmou. Claros também acusou a Polícia Federal que atua no Amazonas de não tomar atitudes diante das denúncias. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetrag-PA), Carlos Augusto Santos Silva, pediu “ação ostensiva” do governo federal para garantir a segurança dos defensores dos direitos humanos. Ele informou que foi entregue um mapa da grilagem aos ministros José Eduardo Cardozo e Maria do Rosário (Direitos Humanos). “A paz no campo passa pelo fim da grilagem de terras”, assegurou.
Proteção
Já Laísa Santos Sampaio, irmã de Maria do Espírito Santo (esposa de José Cláudio), também assassinada no Pará, afirmou que o programa de proteção às pessoas ameaçadas de morte da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República “não quis ouvir o caso”. “Nós, no Pará, temos certeza de que todo mundo que está nessa lista morre”, disse, referindo-se ao quase 2 mil camponeses ameaçados de morte que integram lista da Comissão Pastoral da Terra.

Vanessa Grazziotin relata visita de senadores a região de conflitos agrários 08/06/2011

 


Em discurso nesta quarta-feira (8), a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) relatou ao Plenário visita que fez esta semana, juntamente com outros senadores, a uma das áreas de conflito agrário no Brasil, nas divisas dos estados de Rondônia, Acre e Amazonas. A viagem da comissão de senadores foi motivada, explicou a senadora, pelos acontecimentos das últimas semanas, quando cinco sindicalistas, líderes do movimento camponês, foram assassinados.
A comissão de senadores realizou no local uma audiência pública para ouvir os relatos dos agricultores a respeito da situação. Vanessa Grazziotin lembrou o assassinato, no dia 24 de maio, dos líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, mortos a tiros quando voltavam para casa, em um assentamento em Nova Ipixuna, no Pará. O casal havia denunciado crimes ambientais e recebera ameaças de mortes. Três dias depois, lembrou a senadora, o agricultor Adelino Ramos, conhecido como Dinho, líder do Movimento Camponês Corumbiara, em Vista Alegre do Abunã, em Rondônia, foi morto com seis tiros quando se dirigia para uma feira de produtores rurais.
No dia 28 de maio, outro agricultor foi encontrado morto no Pará. Herenilton Pereira dos Santos vivia no mesmo assentamento onde foi morto o casal de ambientalistas e teria visto dois motoqueiros suspeitos de assassinarem José Claudio e Maria do Espírito Santo.
Vanessa Grazziotin informou que foi acompanhada na visita pelos senadores Pedro Taques (PDT-MT), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Valdir Raupp (PMDB-RO). A senadora ressaltou a participação dos agricultores na audiência pública, que considerou “significativa e muito ilustrativa da realidade daquela região”. Ela disse que os agricultores saíram de madrugada, de caminhão, para participar da audiência.
A senadora disse que esses brasileiros humildes vivem em dificuldade que aqueles que moram nas cidades sequer podem imaginar.
Muitos deles, disse a senadora, vivem em assentamentos organizados pelo governo federal, onde enfrentam “dificuldades extremas”.

SUSPEITOS DA MORTE DE ADELINO RAMOS SÃO LEVADOS PARA A POLÍCIA FEDERAL



Os cinco suspeitos de participação no assassinato do líder camponês Adelino Ramos, presos nesta quarta feira (8), em Abunã, distrito de Porto Velho, próximo a região de fronteira com o Acre e Amazonas, chegaram ao final da tarde na Capital e foram levados para a superintendência da Polícia Federal (PF). Um deles teria sido identificado como Jobe Vicente, irmão de Ozias Vicente, este último apontado como autor dos disparos, e que foi preso na semana passada. Os demais presos: Zaqueu Jesus de Souza, Pedro Jesus de Souza, Marcos Antônio Rangel e Odair Pinheiro Cunha. Eles teriam sido capturados durante uma operação que contou com o apoio da Força Nacional de Segurança. A PF ainda não se pronunciou sobre o caso.

Operação prende sete acusados da morte do camponês Adelino Ramos

Cinco pessoas acusadas de participação no homicídio do líder camponês, Adelino Ramos, popular Dinho, foram presas no município de Vista Alegre do Abunã, em operação deflagrada pela Polícia Civil na manhã de quarta-feira (08).
Adelino_Ramos_-_Imagem_news_-_Elinio_NascimentoOutros dois acusados já haviam sido presos anteriormente. Todos estão no presídio Pandinha, de Porto Velho.
Os mandados de prisão foram expedidos pela justiça do estado do Amazonas, pois os acusados também são suspeitos da morte de um agricultor no município de Lábrea, no Amazonas, de acordo com o delegado do município de Extrema de Rondônia, Tallis Beiruth.
Ainda segundo o delegado, a operação foi ocorreu no dia em que o relatório do caso Adelino Ramos tinha que ser entregue ao Ministério Público.
Adelino Ramos foi morto a tiros por um motociclista no dia 27 no distrito de Vista Alegre do Abunã, em Porto Velho, enquanto vendia verduras que produzia no acampamento onde vivia. O agricultor vinha sendo ameaçado de morte por denunciar a ação de madeireiros na divisa entre os estados do Acre, Amazonas e Rondônia.

Suspeitos da morte de Adelino Ramos são levados para a PF


Os cinco suspeitos de participação no assassinato do líder camponês Adelino Ramos, presos nessa quarta feira (8), em Abunã, distrito de Porto Velho, próximo a região de fronteira com o Acre e Amazonas, chegaram ao final da tarde na Capital e foram levados para a superintendência da Polícia Federal (PF). Um deles teria sido identificado como Jobe Vicente, irmão de Ozias Vicente, este último apontado como autor dos disparos, e que foi preso na semana passada. Os demais presos: Zaqueu Jesus de Souza, Pedro Jesus de Souza, Marcos Antônio Rangel e Odair Pinheiro Cunha. Eles teriam sido capturados durante uma operação que contou com o apoio da Força Nacional de Segurança. A PF ainda não se pronunciou sobre o caso.

Homem que teria denunciado extração ilegal de madeira é assassinado no Pará RIO - A Comissão Pastoral da Terra (CPT) informou nesta terça-feira que, mais uma vez, o Pará foi palco da morte de um trabalhador rural. Obede Loyla Souza foi assassinado próximo à sua residência no Acampamento Esperança, no município de Pacajá. Segundo a CPT, Obede teria denunciado e discutido com um grupo que extraía madeira ilegalmente na região. No mês passado, um casal de extrativistas foi morto em uma emboscada, também no Pará. No início de junho, um trabalhador rural foi morto em Eldorado dos Carajás. De acordo com dados da Pastoral da Terra, desde 1996, foram 212 assassinatos em conflitos por terras no Pará.


sábado, 11 de junho de 2011

Escondido da Justiça e de pistoleiros, filho de camponês morto em Rondônia vive clandestino há 15 anos


Foragido da Justiça e escondido de pistoleiros. É assim que Claudemir Gilberto Ramos, 38, resume como foi sua vida nos últimos 15 anos. Ele é um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara (RO), ocorrido em 9 de agosto de 1995, e, desde então, se esconde perambulando país afora, sem emprego e residência fixa, ocultando sua identidade.
A reportagem chegou até Claudemir por meio de um intermediário e só teve contato com o entrevistado no local e no momento da conversa. O entrevistado recebeu o UOL Notíciasnesse domingo (5), em um momento tenso no meio rural brasileiro, com cinco camponeses mortos na região Norte nas últimas duas semanas (veja a entrevista na íntegra no vídeo abaixo).
"Massacre de Corumbiara parecia a guerra do Iraque"Sobrevivente conta sua versão para o massacre de Corumbiara, ocorrido em Rondônia no dia 9 de agosto de 1995
Para o entrevistado, mais do que tenso, o momento é de dor: seu pai, Adelino Ramos, conhecido como Dinho, é um dos cinco camponeses mortos. Liderança do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), surgido um ano após o massacre, ele foi assassinado no último dia 27, em Vista Alegre do Abunã (distrito de Porto Velho). Claudemir não via o pai há cerca de dez anos, assim como não vê as duas filhas há quatro.
Com aparência cansada em razão da rotina soturna, antes de começar a entrevista Claudemir fez uma oração silenciosa, seguida por um longo suspiro. “É difícil”, foi a expressão mais repetida por ele ao longo da conversa, que durou mais de uma hora, em meio a momentos de choros e digressões.

A versão de Claudemir para o massacre

O massacre de Corumbiara, no qual dez sem-terra e dois policiais militares morreram - embora os sem-terra falem em até 40 mortos -, é uma história pouco conhecida da maioria dos brasileiros, O resultado, porém, indica que, como nos massacres do Contestado, Canudos, Carandiru e Carajás, o aparato militar estatal agiu com excesso de truculência e despreparo.
O conflito ocorreu na fazenda Santa Elina, que possuía 20 mil hectares e era considerada devoluta (terra pública, tomada por terceiros, em processo de devolução ao Estado). A área havia sido ocupada por mais de 600 famílias sem-terra 23 dias antes do massacre. Na versão de Claudemir, a matança foi ordenada por fazendeiros da região, que viam no sucesso da empreitada dos sem-terra um exemplo capaz de incentivar outras ocupações.
A violência adotada pela polícia, na avaliação do entrevistado, foi motivada por vingança. Dias antes do massacre, durante uma tentativa de reintegração, os camponeses, armados com espingardas de caça, foices e motosserras, teriam forçado cerca de 20 PMs a se renderem, após um sem-terra ter sido atingido nas costas por um tiro disparado por um policial.
“Não somos hipócritas, não. A gente tinha espingarda de caça, ferramentas de trabalho, foice... A gente tinha um grupo de vigília também. As armas que tínhamos foram distribuídas em um grupo de 150 homens que faziam a vigília para não receber ataques dos pistoleiros. Isso foi a salvação para não morrer mais gente antes do massacre”, diz.
Os PMs foram liberados pelos sem-terra, mas, depois do episódio, intensificaram a perseguição e as provocações aos acampados, que ocorriam desde o início da ocupação, segundo Claudemir. Em paralelo, uma comissão de negociação formada por representantes do governo do Estado, Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) e parlamentares petistas de Rondônia tentava encontrar um final justo para a ocupação.
As intenções da comissão foram em vão. Claudemir afirma que na tarde de 8 de agosto dois policiais, aparentemente com boa vontade, foram até o acampamento com uma proposta vantajosa aos acampados. Empolgados, os sem-terra chegaram até a comemorar, acreditando que a terra seria desapropriada e entregue a eles.
De acordo com Claudemir, porém, a aparente disposição dos policiais era despiste para o ataque. “Eles trapacearam, nos iludiram”, afirmou. Por volta de 2h do dia 9, os sem-terra acordaram com uma chuva de balas sobre o acampamento, que havia sido montado sob a copa de árvores altas. Os camponeses revidaram os disparos, e o tiroteio terminou por volta de 7h, quando a munição dos sem-terra acabou.
A partir daí, os quase 200 policiais militares, encapuzados ou com os rostos pintados, auxiliados, segundo Claudemir, por mais de 400 pistoleiros que estariam vestidos com fardas da polícia, invadiram o acampamento, destruíram os barracos e iniciaram as torturas e execuções contra os sem-terra. Uma das torturas consistia em obrigar os filhos dos camponeses pisotearem os pais, que estavam deitados no chão.
“A gente ficou de bruços no chão. Quem olhasse para cima, tomava tiro na nuca. As crianças eles colocaram para correr em cima dos adultos. Inclusive, nessa ação mataram a menina Vanessa, de seis anos, porque ela saiu correndo, como se fosse fugir, e um fardado atirou nas costas dela. Essa cena eu vi. A criança morreu nos braços da mãe”, diz Claudemir, conhecido na região também como Pantera.
“Eu apanhei muito. Fui muito torturado. Eles cortaram minha orelha com baioneta de fuzil. Meus dentes da frente foram todos quebrados. A última cena que eu vi foi minha mãe gritando ‘não mate meu filho’ e um fardado colocando a arma dentro da boca dela. Aí eu recebi uma paulada na cabeça e só fui acordar no hospital.”
Segundo Claudemir, seus companheiros lhe relataram que seu corpo fora jogado dentro de um caminhão, onde os mortos estavam depositados, e levado até o necrotério de Colorado do Oeste (RO). Lá, ele teria sido salvo por representantes da Igreja e da CUT (Central Única dos Trabalhadores), que acompanhavam os desdobramentos do massacre.
De lá, Claudemir foi levado para o hospital de Vilhena (RO), onde relata que quase foi morto duas vezes por policiais. À época, o camponês, que estava em uma cadeira de rodas, consequência das torturas que sofreu em Corumbiara, viajou para São Paulo, onde foi tratado no Hospital das Clínicas, e começou sua fuga, ajudado por sindicalistas.
Na primeira visita à Rondônia após o massacre, em 1996, Claudemir conta que sofreu uma tentativa de homicídio quando trafegava por uma estrada com sua moto. O atirador errou o alvo, mas ao camponês valeu como aviso de que não era seguro ficar no Estado.
Enquanto fugia dos pistoleiros viajando pelo Brasil, Claudemir teve uma “companheira”, com a qual teve duas filhas, uma com nove anos e outra com 13. A mulher, no entanto, não suportou a pressão da vida clandestina.
“Eu tive desavença com a minha ex-esposa e a gente se separou, mas também foi consequência da luta. A perseguição é demais. Não é fácil para uma mulher ter estrutura para aguentar a perseguição. Hoje eu tenho uma nova companheira, mas estou vendo que uma hora vou perdê-la. Eu quero construir minha vida, minha família, eu não sou bandido. Mas não é fácil”, afirma.

Julgamento “preconceituoso”

Em 2000, o Tribunal do Júri condenou Claudemir a oito anos e meio de prisão pela morte dos dois policiais militares e por cárcere privado dos sem-terra durante o massacre. Cícero Pereira Leite também foi condenado. A denúncia do Ministério Público, que culminou nas condenações, foi fundamentada em investigação da Polícia Civil, que, por sua vez, utilizou como referência apuração conduzida pela Polícia Militar. Em 2005, esgotaram-se os recursos de Claudemir.
Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), integrante da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgado em 2004, concluiu que faltou independência, autonomia e imparcialidade no julgamento. Com base neste relatório, o Comitê Nacional de Solidariedade ao Movimento Camponês de Corumbiara atualmente reivindica ao governo federal esforços para que seja realizado um novo julgamento.
“Meu julgamento foi preconceituoso. Se o corpo de jurados não era de fazendeiros, era orientado por eles. Por isso fui condenado. Eu não matei ninguém, eu não roubei”, reclama o camponês. “Olhem no meu processo se tem prova do que eu fui acusado, se tem prova que eu fui pego com arma. Ao contrário, fui torturado brutalmente.”
Se preso, Claudemir deverá ser conduzido ao presídio Urso Branco, em Porto Velho, um dos campeões em rebeliões e chacinas entre as detenções do país. Ele sabe que lá não duraria muito. “A gente não sabe qual o fazendeiro, mas em Corumbiara e em Colorado corria o boato de que o ‘Claudemir, o Pantera seria assassinado’, e teria um preço de R$ 50 mil para quem fizesse a minha cabeça”, conta.
  • Sepror-AM/Divulgação
    O líder camponês Adelino Ramos, o Dinho, pai de Claudemir, morto em Rondônia no último dia 27

Morte do pai

Claudemir é um dos filhos de Adelino Ramos, natural do Paraná, que se mudou com os três filhos e a mulher para Rondônia. Antes de se tornar sindicalista e líder camponês, Adelino ganhava a vida como pequeno produtor, comercializando as verduras que produzia. Como ironia do destino, foi assassinado a tiros em frente às duas filhas e à segunda mulher, enquanto vendia as hortaliças.
“Se é para entregar a vida para que as coisas melhorem, minha vida está a disposição da causa. Perder o pai, igual eu perdi, não é fácil, Meu pai chegou em Rondônia com nós e para nos sustentar vendia verdura. E ele morreu vendendo verdura para sustentar as duas filhas pequenas.”
“Essa perseguição não é porque tinha um grupo de madeireiros querendo matar meu pai, é porque quer incriminar os movimentos sociais no país todo", opina. "Eu elogio o governo do Lula e o governo da Dilma. Muita coisa foi feita nas favelas, no Nordeste, mas e a reforma agrária? Os camponeses vão ter que morrer todos?”, questiona.
Abaixo, a íntegra da entrevista.


terça-feira, 7 de junho de 2011

Polícia do Amazonas vai atuar de forma integrada com polícia de Rondônia em área de conflito


Comitiva de senadores foi a Extrema, distrito de Rondônia, nesta segunda-feira e ouviu denúncias de agricultores

Manaus, 06 de Junho de 2011


Governo anuncia medidas para áreas de conflito agrário na divisa de Amazonas e Rondônia
Reunião ocorrida nesta segunda-feira, em Extrema (RR), entre órgãos governamentais, senadores e agricultores (Alfredo Fernandes/AGECOM )
A Polícia Militar do Amazonas planeja atuar de forma integrada com a polícia de Rondônia nas áreas de conflito da divisa dos dois Estados.
O comandante da PM do Amazonas, Coronel Almir David Barbosa, anunciou este projeto durante a reunião ocorrida no distrito de Extrema (RO), nesta segunda-feira (06), coordenada por um comitiva de senadores.
Ele afirmou que serão instalados novos postos nos ramais localizados no território do Amazonas, nas proximidades do município de Lábrea, divisa com Rondônia.
Segundo informações da Agência de Comunicação (Agecom), os Institutos de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado (Idam) e de Proteção Ambiental do Estado (Ipaam) pretendem implantar um escritório único em Extrema, por ser área central, nos próximos 30 dias.
O Idam atua na região de fronteira desde 2007, no distrito Nova Califórnia.
O trabalho prioritário, segundo o diretor-presidente do Idam, Edimar Vizzoli, será o de articular a ampliação do programa “Terra Legal” – que é gerenciado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) – e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para promover políticas de regularização fundiária, fator apontado como principal razão dos conflitos na região.

Comitiva
Aproximadamente 200 agricultores de Extrema, Nova Califórnia e Vista Alegre do Abunã, onde Adelino Ramos foi assassinado no último dia 27, participaram da reunião.
O grupo de senadores que viajou a Roraima nesta segunda foi formado por Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e dos senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Pedro Tasques (PDT-MT) e Valdir Raupp (PMDB-RO).
A comitiva também incluiu o secretário de Produção Rural do Amazonas, Eron Bezerra, e representantes da Comissão Pastoral da Terra, Ordem dos Advogados do Brasil e do Ministério Público Federal.
Entre as várias reclamações que recolheram e que deverão ser reunidas em um documento, os senadores ouviram que muitas pessoas continuam marcadas para morrer e que um dos maiores problemas é a lentidão da regularização fundiária dos projetos de assentamento.
Na viagem a Extrema, os senadores também obtiveram informações do delegado Tales Beiruth, que está à frente das investigações do assassinado de Ramos, de que o inquérito instaurado será entregue nesta quarta-feira (09) à justiça de Roraima.
O único suspeito do crime, Ozias Vicente, permanece preso (embora ele negue o crime), mas a polícia acredita que há outros envolvidos no assassinato.



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