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sábado, 11 de junho de 2011

Escondido da Justiça e de pistoleiros, filho de camponês morto em Rondônia vive clandestino há 15 anos


Foragido da Justiça e escondido de pistoleiros. É assim que Claudemir Gilberto Ramos, 38, resume como foi sua vida nos últimos 15 anos. Ele é um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara (RO), ocorrido em 9 de agosto de 1995, e, desde então, se esconde perambulando país afora, sem emprego e residência fixa, ocultando sua identidade.
A reportagem chegou até Claudemir por meio de um intermediário e só teve contato com o entrevistado no local e no momento da conversa. O entrevistado recebeu o UOL Notíciasnesse domingo (5), em um momento tenso no meio rural brasileiro, com cinco camponeses mortos na região Norte nas últimas duas semanas (veja a entrevista na íntegra no vídeo abaixo).
"Massacre de Corumbiara parecia a guerra do Iraque"Sobrevivente conta sua versão para o massacre de Corumbiara, ocorrido em Rondônia no dia 9 de agosto de 1995
Para o entrevistado, mais do que tenso, o momento é de dor: seu pai, Adelino Ramos, conhecido como Dinho, é um dos cinco camponeses mortos. Liderança do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), surgido um ano após o massacre, ele foi assassinado no último dia 27, em Vista Alegre do Abunã (distrito de Porto Velho). Claudemir não via o pai há cerca de dez anos, assim como não vê as duas filhas há quatro.
Com aparência cansada em razão da rotina soturna, antes de começar a entrevista Claudemir fez uma oração silenciosa, seguida por um longo suspiro. “É difícil”, foi a expressão mais repetida por ele ao longo da conversa, que durou mais de uma hora, em meio a momentos de choros e digressões.

A versão de Claudemir para o massacre

O massacre de Corumbiara, no qual dez sem-terra e dois policiais militares morreram - embora os sem-terra falem em até 40 mortos -, é uma história pouco conhecida da maioria dos brasileiros, O resultado, porém, indica que, como nos massacres do Contestado, Canudos, Carandiru e Carajás, o aparato militar estatal agiu com excesso de truculência e despreparo.
O conflito ocorreu na fazenda Santa Elina, que possuía 20 mil hectares e era considerada devoluta (terra pública, tomada por terceiros, em processo de devolução ao Estado). A área havia sido ocupada por mais de 600 famílias sem-terra 23 dias antes do massacre. Na versão de Claudemir, a matança foi ordenada por fazendeiros da região, que viam no sucesso da empreitada dos sem-terra um exemplo capaz de incentivar outras ocupações.
A violência adotada pela polícia, na avaliação do entrevistado, foi motivada por vingança. Dias antes do massacre, durante uma tentativa de reintegração, os camponeses, armados com espingardas de caça, foices e motosserras, teriam forçado cerca de 20 PMs a se renderem, após um sem-terra ter sido atingido nas costas por um tiro disparado por um policial.
“Não somos hipócritas, não. A gente tinha espingarda de caça, ferramentas de trabalho, foice... A gente tinha um grupo de vigília também. As armas que tínhamos foram distribuídas em um grupo de 150 homens que faziam a vigília para não receber ataques dos pistoleiros. Isso foi a salvação para não morrer mais gente antes do massacre”, diz.
Os PMs foram liberados pelos sem-terra, mas, depois do episódio, intensificaram a perseguição e as provocações aos acampados, que ocorriam desde o início da ocupação, segundo Claudemir. Em paralelo, uma comissão de negociação formada por representantes do governo do Estado, Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) e parlamentares petistas de Rondônia tentava encontrar um final justo para a ocupação.
As intenções da comissão foram em vão. Claudemir afirma que na tarde de 8 de agosto dois policiais, aparentemente com boa vontade, foram até o acampamento com uma proposta vantajosa aos acampados. Empolgados, os sem-terra chegaram até a comemorar, acreditando que a terra seria desapropriada e entregue a eles.
De acordo com Claudemir, porém, a aparente disposição dos policiais era despiste para o ataque. “Eles trapacearam, nos iludiram”, afirmou. Por volta de 2h do dia 9, os sem-terra acordaram com uma chuva de balas sobre o acampamento, que havia sido montado sob a copa de árvores altas. Os camponeses revidaram os disparos, e o tiroteio terminou por volta de 7h, quando a munição dos sem-terra acabou.
A partir daí, os quase 200 policiais militares, encapuzados ou com os rostos pintados, auxiliados, segundo Claudemir, por mais de 400 pistoleiros que estariam vestidos com fardas da polícia, invadiram o acampamento, destruíram os barracos e iniciaram as torturas e execuções contra os sem-terra. Uma das torturas consistia em obrigar os filhos dos camponeses pisotearem os pais, que estavam deitados no chão.
“A gente ficou de bruços no chão. Quem olhasse para cima, tomava tiro na nuca. As crianças eles colocaram para correr em cima dos adultos. Inclusive, nessa ação mataram a menina Vanessa, de seis anos, porque ela saiu correndo, como se fosse fugir, e um fardado atirou nas costas dela. Essa cena eu vi. A criança morreu nos braços da mãe”, diz Claudemir, conhecido na região também como Pantera.
“Eu apanhei muito. Fui muito torturado. Eles cortaram minha orelha com baioneta de fuzil. Meus dentes da frente foram todos quebrados. A última cena que eu vi foi minha mãe gritando ‘não mate meu filho’ e um fardado colocando a arma dentro da boca dela. Aí eu recebi uma paulada na cabeça e só fui acordar no hospital.”
Segundo Claudemir, seus companheiros lhe relataram que seu corpo fora jogado dentro de um caminhão, onde os mortos estavam depositados, e levado até o necrotério de Colorado do Oeste (RO). Lá, ele teria sido salvo por representantes da Igreja e da CUT (Central Única dos Trabalhadores), que acompanhavam os desdobramentos do massacre.
De lá, Claudemir foi levado para o hospital de Vilhena (RO), onde relata que quase foi morto duas vezes por policiais. À época, o camponês, que estava em uma cadeira de rodas, consequência das torturas que sofreu em Corumbiara, viajou para São Paulo, onde foi tratado no Hospital das Clínicas, e começou sua fuga, ajudado por sindicalistas.
Na primeira visita à Rondônia após o massacre, em 1996, Claudemir conta que sofreu uma tentativa de homicídio quando trafegava por uma estrada com sua moto. O atirador errou o alvo, mas ao camponês valeu como aviso de que não era seguro ficar no Estado.
Enquanto fugia dos pistoleiros viajando pelo Brasil, Claudemir teve uma “companheira”, com a qual teve duas filhas, uma com nove anos e outra com 13. A mulher, no entanto, não suportou a pressão da vida clandestina.
“Eu tive desavença com a minha ex-esposa e a gente se separou, mas também foi consequência da luta. A perseguição é demais. Não é fácil para uma mulher ter estrutura para aguentar a perseguição. Hoje eu tenho uma nova companheira, mas estou vendo que uma hora vou perdê-la. Eu quero construir minha vida, minha família, eu não sou bandido. Mas não é fácil”, afirma.

Julgamento “preconceituoso”

Em 2000, o Tribunal do Júri condenou Claudemir a oito anos e meio de prisão pela morte dos dois policiais militares e por cárcere privado dos sem-terra durante o massacre. Cícero Pereira Leite também foi condenado. A denúncia do Ministério Público, que culminou nas condenações, foi fundamentada em investigação da Polícia Civil, que, por sua vez, utilizou como referência apuração conduzida pela Polícia Militar. Em 2005, esgotaram-se os recursos de Claudemir.
Relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), integrante da Organização dos Estados Americanos (OEA), divulgado em 2004, concluiu que faltou independência, autonomia e imparcialidade no julgamento. Com base neste relatório, o Comitê Nacional de Solidariedade ao Movimento Camponês de Corumbiara atualmente reivindica ao governo federal esforços para que seja realizado um novo julgamento.
“Meu julgamento foi preconceituoso. Se o corpo de jurados não era de fazendeiros, era orientado por eles. Por isso fui condenado. Eu não matei ninguém, eu não roubei”, reclama o camponês. “Olhem no meu processo se tem prova do que eu fui acusado, se tem prova que eu fui pego com arma. Ao contrário, fui torturado brutalmente.”
Se preso, Claudemir deverá ser conduzido ao presídio Urso Branco, em Porto Velho, um dos campeões em rebeliões e chacinas entre as detenções do país. Ele sabe que lá não duraria muito. “A gente não sabe qual o fazendeiro, mas em Corumbiara e em Colorado corria o boato de que o ‘Claudemir, o Pantera seria assassinado’, e teria um preço de R$ 50 mil para quem fizesse a minha cabeça”, conta.
  • Sepror-AM/Divulgação
    O líder camponês Adelino Ramos, o Dinho, pai de Claudemir, morto em Rondônia no último dia 27

Morte do pai

Claudemir é um dos filhos de Adelino Ramos, natural do Paraná, que se mudou com os três filhos e a mulher para Rondônia. Antes de se tornar sindicalista e líder camponês, Adelino ganhava a vida como pequeno produtor, comercializando as verduras que produzia. Como ironia do destino, foi assassinado a tiros em frente às duas filhas e à segunda mulher, enquanto vendia as hortaliças.
“Se é para entregar a vida para que as coisas melhorem, minha vida está a disposição da causa. Perder o pai, igual eu perdi, não é fácil, Meu pai chegou em Rondônia com nós e para nos sustentar vendia verdura. E ele morreu vendendo verdura para sustentar as duas filhas pequenas.”
“Essa perseguição não é porque tinha um grupo de madeireiros querendo matar meu pai, é porque quer incriminar os movimentos sociais no país todo", opina. "Eu elogio o governo do Lula e o governo da Dilma. Muita coisa foi feita nas favelas, no Nordeste, mas e a reforma agrária? Os camponeses vão ter que morrer todos?”, questiona.
Abaixo, a íntegra da entrevista.


terça-feira, 7 de junho de 2011

Polícia do Amazonas vai atuar de forma integrada com polícia de Rondônia em área de conflito


Comitiva de senadores foi a Extrema, distrito de Rondônia, nesta segunda-feira e ouviu denúncias de agricultores

Manaus, 06 de Junho de 2011


Governo anuncia medidas para áreas de conflito agrário na divisa de Amazonas e Rondônia
Reunião ocorrida nesta segunda-feira, em Extrema (RR), entre órgãos governamentais, senadores e agricultores (Alfredo Fernandes/AGECOM )
A Polícia Militar do Amazonas planeja atuar de forma integrada com a polícia de Rondônia nas áreas de conflito da divisa dos dois Estados.
O comandante da PM do Amazonas, Coronel Almir David Barbosa, anunciou este projeto durante a reunião ocorrida no distrito de Extrema (RO), nesta segunda-feira (06), coordenada por um comitiva de senadores.
Ele afirmou que serão instalados novos postos nos ramais localizados no território do Amazonas, nas proximidades do município de Lábrea, divisa com Rondônia.
Segundo informações da Agência de Comunicação (Agecom), os Institutos de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado (Idam) e de Proteção Ambiental do Estado (Ipaam) pretendem implantar um escritório único em Extrema, por ser área central, nos próximos 30 dias.
O Idam atua na região de fronteira desde 2007, no distrito Nova Califórnia.
O trabalho prioritário, segundo o diretor-presidente do Idam, Edimar Vizzoli, será o de articular a ampliação do programa “Terra Legal” – que é gerenciado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) – e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para promover políticas de regularização fundiária, fator apontado como principal razão dos conflitos na região.

Comitiva
Aproximadamente 200 agricultores de Extrema, Nova Califórnia e Vista Alegre do Abunã, onde Adelino Ramos foi assassinado no último dia 27, participaram da reunião.
O grupo de senadores que viajou a Roraima nesta segunda foi formado por Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e dos senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Pedro Tasques (PDT-MT) e Valdir Raupp (PMDB-RO).
A comitiva também incluiu o secretário de Produção Rural do Amazonas, Eron Bezerra, e representantes da Comissão Pastoral da Terra, Ordem dos Advogados do Brasil e do Ministério Público Federal.
Entre as várias reclamações que recolheram e que deverão ser reunidas em um documento, os senadores ouviram que muitas pessoas continuam marcadas para morrer e que um dos maiores problemas é a lentidão da regularização fundiária dos projetos de assentamento.
Na viagem a Extrema, os senadores também obtiveram informações do delegado Tales Beiruth, que está à frente das investigações do assassinado de Ramos, de que o inquérito instaurado será entregue nesta quarta-feira (09) à justiça de Roraima.
O único suspeito do crime, Ozias Vicente, permanece preso (embora ele negue o crime), mas a polícia acredita que há outros envolvidos no assassinato.



sexta-feira, 3 de junho de 2011

Polícia do Amazonas ignorou notificações da ouvidoria agrária de que camponês seria morto

O ouvidor agrário nacional, desembargador Gercino José da Silva Filho, fez diversas notificações às autoridades policiais do Amazonas avisando que Adelino Ramos, o Dinho, assassinado na sexta-feira passada (27), poderia ser morto a qualquer momento por madeireiros que atuavam ilegalmente no Amazonas e em Rondônia.
As últimas notificações foram feitas em setembro de 2010 e em fevereiro deste ano. Em setembro, o ouvidor pediu proteção policial às famílias do assentamento onde Dinho morava, no extremo sul amazonense, que estavam recebendo constantes ameaças dos madeireiros, que circulavam armados pela região. Em fevereiro, Gercino pediu que fosse cumprido o mandado de prisão de Ozias Vicente, expedido pela Justiça de Lábrea (AM).
Vicente foi preso na última segunda-feira (30) em Porto Velho suspeito de ter matado Dinho em Vista Alegre do Abunã (RO), na divisa com o Amazonas. As notificações do ouvidor foram encaminhadas ao então secretário de Segurança Pública do Amazonas, Geraldo André Scarpellini Vieira, ao diretor-geral da Polícia Civil, Mauro César Medeiros Nunes, e ao comandante da Polícia Militar, coronel Dan Câmara.
Na notificação de setembro, Gercino pede que sejam tomadas “as medidas necessárias para garantir a segurança do acampamento dos trabalhadores rurais ligados ao Movimento Camponês Corumbiara (...) bem como a incolumidade física das famílias acampadas no local, haja vista que (...) Adelino Ramos endereçou correspondência a esta Ouvidoria Agrária Nacional nesta data, reportando que ele, assim como as famílias do acampamento, estão sendo ameaçadas pelos seguintes fazendeiros e  madeireiros: Luiz Vicente, Jobs Vicente, Ozias Vicente (...) e por outra pessoa conhecida como Ceará Popó" - que foi preso na terça-feira durante operação da Polícia Federal.

VEJA AS NOTIFICAÇÕES

  • Reprodução/Ouvidoria Agrária Nacional Trecho da notificação encaminhada pela ouvidoria agrária para as autoridades de segurança do Amazonas
  • Reprodução/Ouvidoria Agrária Nacional Mandado de prisão expedido no início deste ano contra Ozias Vicente, preso na segunda-feira (30) suspeito pela morte do líder camponês Adelino Ramos
Em outro trecho da notificação de setembro, o ouvidor relata às autoridades que os camponeses denunciaram ao Ministério Público e à delegacia de Lábrea a ocorrência de “grilagem de terras públicas, desmatamento, agressões físicas e ameaças de morte contra líderes e trabalhadores rurais sem-terra por fazendeiros e madeireiros da região do sul do município de Lábrea.”

Mandados de prisão não foram cumpridos

No início deste ano, a juíza da Comarca de Lábrea, Dinah Câmara Fernandes de Souza, expediu mandado de prisão preventiva contra Ozias Vicente e mais 14 madeireiros, após pedido da promotoria de Lábrea e da Polícia Civil do mesmo município. Na notificação encaminhada em fevereiro deste ano, o ouvidor reforçou a necessidade da agilidade no cumprimento dos mandados.
“Ressalto que a prisão preventiva em tela contribuirá, sem dúvida, para diminuir o número de conflitos agrários e principalmente a violência na zona rural da região sul do Estado do Amazonas.”
Os mandados de prisão preventiva, no entanto, não foram cumpridos. Em março, a defesa de Ozias conseguiu revogar o mandado. “Os mandados não foram cumpridos por falta de recursos humanos. Talvez se os mandados tivessem sido cumpridos o Dinho não teria sido morto”, afirmou o ouvidor agrário em entrevista ao UOL Notícias.
Gercino afirmou desconhecer o motivo pelo qual as notificações de proteção às famílias ameaçadas não foram atendidas, já que as autoridades não lhe responderam. O ouvidor cita dois momentos em que policiais civis e militares só permaneceram na área do conflito em Lábrea porque o custeio com as despesas da operação foi bancado com recursos da própria ouvidoria.
“Em 2008, pedimos à cúpula da Secretaria de Segurança Pública que mandassem reforço policial à área. Eles falaram que só poderiam ir para lá se a ouvidoria arcasse com as despesas. Nós conseguimos arcar com as despesas durante 90 dias, mas nossos recursos acabaram. Enquanto os policiais estiveram lá [em Lábrea], a situação ficou tranqüila.”
O outro momento em a ouvidoria bancou a permanência da polícia em Lábrea foi no ano passado. “Os policiais ficaram lá por 30 dias. Depois, assim que eles voltaram para Manaus, as ameaças voltaram a acontecer”, diz Gercino.
A reportagem procurou a Polícia Militar para saber o motivo pelo qual as notificações não foram atendidas, mas ainda não obteve uma resposta. A Secretaria de Segurança Pública foi procurada por meio de sua assessoria, mas afirmou que não podia atender a reportagem por conta de um evento que mobilizou todos funcionários do setor de comunicação.
O UOL Notícias procurou também a Justiça de Lábrea para saber por qual razão o mandado de prisão contra Ozias foi revogado, mas a Comarca informou que não tem autorização para repassar informações referentes a processos criminais.

Onda de mortes

Cinco camponeses foram mortos na região norte em menos de dez dias, quatro deles no sudeste paraense. O última morte foi de Marcos Gomes da Silva, 33, natural do Maranhão, assassinado em Eldorado dos Carajás no quarta-feira (1º).
Na semana passada, três mortes ocorreram em Nova Ipixuna, também no sudeste paraense: o casal de castanheiros José Cláudio Ribeiro da Silva, 52, e Maria do Espírito Santo da Silva, 50, ativistas que denunciavam a ação ilegal de madeireiros, foi executado na terça-feira (24); no domingo (29), foi encontrado o corpo de Eremilton Pereira dos Santos, 25, que morava no mesmo assentamento do casal.
Na sexta-feira (27), a vítima foi Adelino Ramos, o Dinho, liderança do Movimento Camponês Corumbiara (MCC), assassinado enquanto vendia verduras em Vista Alegre do Abunã, distrito de Porto Velho (RO). Dinho foi um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara --ocorrido em agosto de 1995, no qual pelo menos 12 pessoas morreram nas mãos de pistoleiros e PMs-- e também denunciava a atuação de madeireiros.
Ninguém foi preso pelos crimes ocorridos no Pará. Em Rondônia, o suspeito Ozias Vicente, que atuava na extração ilegal de madeira, foi detido na segunda-feira (30). A polícia investiga a participação de outras pessoas no crime.

Veja onde os camponeses foram mortos

Após execução de líder camponês, agricultores de assentamento fogem de ameaças no Amazonas

Assentamento Florestal Curuquetê, em Lábrea (AM), onde vivia o camponês Adelino Ramos, em fotografia tirada nesta sexta-feira (03) (Divulgação/Ibama)
As famílias do Projeto de Assentamento Florestal (PAF) Curuquetê, cuja principal liderança era o camponês Adelino Ramos, conhecido como Dinho, assassinado no último dia 27, se dispersaram, com receio de serem perseguidas e ameaçadas.
Durante visita realizada nesta sexta-feira (03) no assentamento (a primeira desde o assassinato), localizado na região do município de Lábrea, no sul do Amazonas, agentes da Polícia Federal e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) identificaram no local apenas cinco famílias, segundo o advogado dos agricultores, Rafael Claros.
Segundo Claros, em entrevista ao portal acritica.com, as cinco famílias estão se sentindo desamparadas e com dificuldade de acesso a outras áreas. Conforme o advogado, no local viviam 20 famílias.
O carro de Ramos, único meio de locomoção das famílias do assentamento, permanece retido na Delegacia de Extrema, distrito de Porto Velho (RO).
“O pessoal está isolado e sem alimento. Eles estão se sentindo abandonados. Está faltando um líder depois que o Adelino foi assassinado”, disse Claros.
A ida da PF e do Ibama ao assentamento faz parte das investigações para esclarecer o assassinato de Adelino Ramos.
Foram recolhidas informações do computador do agricultor e do telefone celular, além de documentos que provam denúncias anteriores e pedidos de socorro feitos pelos camponeses em função das ameaças que vinham sofrendo.
Reparação
A viúva de Adelino, cujo nome não vem sendo identificado, permanece longe do assentamento, para ser “preservada”, pois continua sendo ameaçada, especialmente após ter testemunhado a morte do marido, segundo Claros.
Conforme o advogado, a família de Adelino Ramos estuda buscar reparação contra a União pela inexistência do poder público na área e pelo fato de nenhum órgão ter dado ouvido às denúncias realizadas pelos camponeses.
Responsabilidade
Indagado sobre a criação do PAF pelo Instituto Nacional de Colonização Agrária (Incra), publicada nesta sexta-feira (03) no Diário Oficial da União, Rafael Claros disse que esta é uma medida que chegou atrasada, porque sua demora levou muita insegurança jurídica aos assentados.
Claros destacou a morosidade do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) em liberar o licenciamento ambiental que daria ao Incra o respaldo para reconhecer o PAF.
“Eu estive pessoalmente no Incra, em Manaus, umas dez vezes desde 2008. Também ligava dia sim, dia não ao Ipaam e não nos davam qualquer resposta. Uma semana antes do Dinho morrer, me disseram no Ipaam que o licenciamento só sairia em 60 dias. E era licenciamento prévio, mais simples. Não era uma licença mais elaborada, que precisava de visita técnica”, disse o advogado.
O advogado disse que foi a “insegurança jurídica” e a falta de determinação federal que facilitou a ação de desmatadores na região, inclusive nas glebas e nos assentamentos.
Ele salientou que “apenas” a Secretaria de Produção Rural do Amazonas (Sepror) apoiou os agricultores.
A reportagem não conseguiu falar com a superintendente do Incra, Maria do Socorro Feitoza.
Ipaam
Procurada, o Ipaam enviou a seguinte nota, publicada na íntegra:
“ O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaaesclarece que a velocidade com que é emitida uma licença não é matemática. Ela é diretamente proporcional à velocidade e correção com que são entregues os documentos pelos solicitantes.
O Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê não é a única demanda do Incra e do Ipaam.
Em razão disso, os dois órgãos, há um pouco mais de um mês, realizaram uma reunião na qual o Incra assumiu o compromisso de acelerar a entrega da documentação dos projetos de assentamento e o Ipaam, por sua vez, assumiu o compromisso de acelerar a análise e a conseqüente emissão das licenças.
Da reunião resultou maior velocidade na tramitação dos processos do Incra o que resultou na conclusão do processo do PAF Curuquetê, com a licença emitida no dia 26 de maio, infelizmente na véspera do episódio que culminou na morte do líder do assentamento, Adelino Ramos”.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sobrevivente de Corumbiara escreve homenagem ao pai, camponês morto em Rondônia Claudemir lembra que Adelino Ramos, a exemplo de outros líderes mortos na última semana, denunciaram a ação de madeireiras na região amazônic


Publicado em 01/06/2011, 14:30
Última atualização às 14:30
 
São Paulo – Claudemir Gilberto Ramos, sobrevivente do massacre contra trabalhadores rurais em Corumbiara, em 1995, escreveu uma carta em homenagem ao pai, Adelino Ramos, o Dinho, morto na última semana em Rondônia. Claudemir não pôde comparecer ao sepultamento do pai, no último domingo (29) em Theobroma, interior de Rondônia, por ser considerado foragido da Justiça desde 2004.
Dinho havia denunciado madeireiros da região e chegou a avisar há dois anos que sofria ameaças. Para o filho, o camponês caiu na batalha por uma distribuição mais justa da terra. "Mataram a tiros na frente de suas filhas de dois e quatro anos, na frente de sua esposa. Ainda bem que não matou as filhas e a esposa", lamenta Claudemir no texto, divulgado agora pela Rede Brasil Atual.
Claudemir foi condenado a oito anos e seis meses de prisão em 2004. No entanto, ele não aceita cumprir a pena porque sua sentença foi definida com base em uma investigação conduzida pela Polícia Militar, diretamente envolvida no massacre. Os policiais indicaram Claudemir como um dos líderes do movimento, e desde então o militante vive sem endereço fixo, ameaçado por pistoleiros de Rondônia e escapando da execução da pena.
Abaixo, a carta escrita em homenagem a Adelino Ramos:

Meu Pai, Meu Herói, que Deus o Tenha.

Meu pai era um líder, meu herói, cumpriu sua missão! Deus deu a missão do bem e o demônio deu a missão do mal para cada ser humano cometer a maldade que quiser; Deus deu a missão do bem para todos, mas os do mal preferiram ficar com a missão da maldade, e sei que muitos dos ideais da esquerda da qual faço parte não acredita em Deus. Eu acredito e sirvo a este Deus do bem, todo poderoso.
Seu filho, Jesus Cristo, morreu por nós. Para mim, o maior revolucionário do mundo, que morreu de braços abertos, ressuscitou no terceiro dia e vive em nós. Cada um tem seu livre arbítrio, eu sou do caminho de Deus, da justiça para todos, da moradia digna, do salário digno, da saúde e da educação para todos. E terra para trabalhar, terra da qual ninguém e dono, e sim Nosso Deus, que deixou a terra para ser igualitária para todos.
Deixou a natureza para ser respeitada, a floresta para gerar vida, água para beber, ar puro para refrescar do calor, para nos alimentar, para os animais viverem, assim como para os nossos irmãos índios viverem em seus lares, viverem sua liberdade. Tudo isso Deus nos deixou, mas não está sendo respeitado por homens do mal, gananciosos, poderosos, assassinos da floresta, de seres que vivem na floresta assassinando os que defendem a floresta, assim como Chico Mendes.
Meu pai, como tantos outros no mundo todo, como o casal do Pará, José Cláudio Ribeiro da Silva, conhecido como Zé Castanha, e sua esposa, Maria do Espírito Santo, que vivia da extração de castanhas, denunciava a ação de madeireiros e carvoeiros na região. 
Pela luta em defesa da natureza, pela construção de um país mais humano, caiu em combate no dia 24 de maio de 2011 no assentamento Praia Alta da Piranheira, executados a tiros por pistoleiros a serviço de madereiros.
Como dizia seu Zé Castanha: “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes, querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a irmã Dorothy, querem fazer comigo. Eu posso estar hoje aqui conversando com vocês, daqui a um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci”. 
Na construção de um outro mundo justo, igual e cheio de alegria, lembraremos os companheiros que caíram em combate e gritaremos com alma e coração: "José Claudio e Maria - PRESENTES!"
Meu pai não morreu, foi assassinado, tiraram sua vida na marra, da maneira mais covarde possível. Mataram a tiros na frente de suas filhas de dois e quatro anos, na frente de sua esposa. Ainda bem que não matou as filhas e a esposa. Ele ia vender verduras produzidas em sua terra para dar sustento à família, afinal os sem terra querem a terra para isso para produzir e alimentar sua família, não como alguns que pegam a terra para negócio de exploração.
É verdade, tem muitos sem terra que não dão valor à luta e se vendem. Esses são os maus sem terras, baderneiros, mas temos que separar o joio do trigo.
Meu pai foi um bom exemplo para a sociedade. Deu sua vida para o bem do ser humano e de nossas causas sociais. Pai, meu querido, o capitalismo nos separou por onze anos, e com muita tristeza que digo isto, nem no seu enterro pude ir. Sei que o senhor morreu, mas mesmo vendo as fotos que foram publicadas pela imprensa eu não consigo acreditar que o senhor se foi. Tenho que aceitar a realidade. Muitas vezes me deu vontade de ir com o senhor para lutar, mas como o senhor sabia, se eu tivesse ido teria morrido muito antes do senhor, pois minha cabeça estava a prêmio por latifundiários de Rondônia. 
Fui condenado em um julgamento da justiça de Rondônia. Pra mim, injustiça é lutar por meu direito a Reforma Agrária e tantos outros que estavam pela Fazenda Santa Elina, em Corumbiara. Hoje vivo fugindo como se fosse bandido, por lutar por meus direitos de cidadão. Não cometi crime algum, até porque não existe prova nos autos do processo. Fui torturado, dado como morto pela Polícia Militar e jagunços fardados que assassinaram vários na Fazenda Santa Elina, inclusive a menina Vanessa, de 6 anos, morta a tiros por homens covardes. 
Assim como o senhor, Pai, uma semana antes de sua morte sonhei com o senhor assassinado por tiros. Fiquei a semana toda angustiado, mas como não podia prever o futuro mataram o senhor, meu pai, meu herói, meu exemplo de vida. Honrarei a lei de Deus como está na Bíblia Sagrada: honrarás seu pai e sua mãe, e farei seguindo seu bom exemplo, pois sei que o senhor tinha erros, como todos os seres humanos. 
Pai, o que eu não pude pedir em vida pedirei agora, e espero que o senhor esteja junto de Deus, pois oro a Deus para perdoar seus pecados e o receber como um anjo no céu. Pai, me perdoa pelos erros que cometi, que magoaram o senhor e que não foi do seu bom exemplo e assim. Peço perdão a Deus!!!
Em toda a esfera da sociedade, comunidade, povoados, família, temos que ter um líder, seja mulher ou homem, para nos orientar, se organizar, se formar, se unir para trabalhar e lutar por nossos direitos de ser humanos que somos, e um destes líderes foi meu pai, meu herói.
Te amo, Pai, eternamente em nome de nossa família descanse em paz no paraíso e ao lado de nosso Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo.
Hasta la victoria, siempre!!! (Che Guevara). Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás
A luta de meu pai terminou, mas peço a Deus forças para que eu possa cobrir o vácuo que ficará com a morte do Dinho. Povo de Rondonia, não esmoreça, não tenham medo, pois o que eles mais querem é um povo medroso, covarde e que aceite tudo como eles querem. Covardes são eles, medrosos são eles, por que quanto o povo se revoltar, pode tomar tudo o que é de vocês por direito.
E para aqueles que necessitam de dinheiro, perde a honra e o caráter de matar por dinheiro. Sonho um dia ver esses matadores de aluguel pegarem um lavrador no braço para ver quem sobrevive. Como dizia Martinho da Vila, “você com um revolver na mão é um homem feroz, feroz. Sem ele anda de lado...”
Lutem, Avante Povo Sofrido, povo de Deus, A LUTA NÃO PARA, CONTINUA!!!
Claudemir Gilberto Ramos"
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